Terça-feira, Maio 14, 2013

Que véu é este que cobre o teu rosto?



Já não sabemos ver – ver sem estrelas e desejo de ser aceite pelo gosto, ver sem o arrebatamento mágico da imagem, sem a pressão da pergunta infantil e tão malévola que faz já parte da banda sonora dos créditos (“gostaste?”). Já não sabemos respeitar. Já não sabemos ver sem ter a certeza que o futuro e a morte trazem consigo o perverso efeito que reavalia o passado. De To the Wonder – recorte com o infinito e com a odisseia da ausência do amor e de Deus – ficam as experiências sempre virgens do embate com a beleza, desencanto e crueza fundamentais. Ninguém mas tira.

Segunda-feira, Abril 01, 2013

Onde estás, Gus Van Sant?


Podiam vir do mesmo filme mas não – este campo / contra-campo faz-se entre dois filmes: o primeiro, Paranoid Park, o segundo, Promised Land (ou Terra Prometida), que se estreou em Portugal há poucos dias. O primeiro rejeita, com uma força ferozmente adolescente, a presença do adulto (lembram-se dos pais “cortados” do enquadramento?); o segundo debruça-se sobre os labirintos de uma comunidade envelhecida pelo peso do trabalho no campo, vendo aqueles que “estão por vir como adultos” com um olhar complacente, carregado de um discurso muito político que nos parece dizer: “temos de tomar as melhores decisões porque... eles são o futuro.” 

Gus Van Sant atira-se ao projeto de Matt Damon (que não dirigiu por questões de agenda) sem querer comprometer os valores neoclássicos que Terra Prometida quer recuperar (através de um argumento e produção trancadíssimos) – e, ainda assim, tenta exibir-se pela forma como se nos quisesse provar que ainda é o realizador deste filme. O resultado? Um objeto quase desprovido de personalidade que no entanto me cativa pelo sentido de comunidade e, por conseguinte, pela pulsão humanista que aqui transpira. 

A realização agarra-se aos atores (refiro-me em especial a Matt Damon e à sua colega Frances McDormand) com fundamentada fé: quer dizer, Terra Prometida subsiste da intensidade da sua presença. E aqui reside o enigma do filme e, talvez, de todos os filmes de Gus Van Sant que não consigo deixar de amar – o modo luminoso como ele filma as pessoas, posicionando-se de frente ao seu olhar, procurando alguma espécie de revelação e encontrar dentro dele alguma coisa que nos leve para o infinito. 

Terra Prometida quer ser mais do que apenas isto (“apenas isto” levou-o a criar Elephant, que em 2013 comemora o 10.º aniversário), conduzindo-nos, aqui sim de forma desajeitada, às enfadonhas dinâmicas de Matt Damon e John Krasinski (também argumentistas) ou de Damon / Rosemarie DeWitt, entre os quais nunca sentimos o esboço de uma relação de amor, antes um encargo narrativo que deve ser ilustrado pela realização... E mesmo Hal Holbrook parece servir mecanicamente o drama como a “voz da sabedoria e da ponderação” (como, curiosamente, O Bom Rebelde...) E tudo isto é triste – entre todos eles existe alguém chamado Gus Van Sant como nome menor. Dele teremos mais, é essa a nossa felicidade.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2013

Das trevas para as trevas

É tempo de rever A Rede Social – já chegou aquela altura em que a televisão portuguesa o reduziu, com todos os seus delicados intervalos e gosto de programação, como “um filme de sábado à tarde” (foi na SIC, no passado dia 16). Confesso o meu desapontamento quando estreou por cá, ao lado de uma estranha euforia, precisamente alastrada no Facebook, que andava de mão dada com a felicidade de termos um filme – ainda para mais “controverso” (Mark Zuckerberg expressou o descontentamento com o facto de dramatizarem a própria vida) – sobre as origens míticas da rede que prende o planeta do outro lado do ecrã. Enfim, nada nos impede de “corrigir”, mais tarde, as nossas percepções sobre um determinado objeto – foi o que precisamente aconteceu comigo com este filme que, de qualquer modo, chegou seguramente fora do seu tempo (algumas reações mornas davam conta de um filme asséptico, apenas sobre nerds). 

A Rede Social não só me parece como um dos melhores que David Fincher nos deu como, sobretudo, como um desses objetos que nos lançam para o abismo da virtualidade do nosso real. Quer isto dizer que funciona perfeitamente como um espelho do mundo das trevas “deste lado” dos espectadores – “das trevas para as trevas”, exatamente como Cormac McCarthy escreveu em Nas Trevas Exteriores (Outer Dark). No mesmo livro, uma personagem feminina diz que “não há uma alma neste mundo que não seja um estranho pra mim” – eis a evidência trágica, escrita há quase 50 anos atrás, que nos leva diretamente para o universo de A Rede Social, universo de triste solidão (a do protagonista) e de dois desejos muito humanos e que pouco ou nada terão a ver com computadores: de nos sentirmos próximos do outro e de consagrarmos, com toda a nossa sede de poder, uma identidade (a nossa). A partir da construção de uma timeline (a nossa linha da vida que existe “daquele lado” do ecrã), dos nossos gestos virtuais (o like, uma partilha, um estado de relacionamento) que vão definindo o nosso próprio mundo. Como nos mostrou Fincher, hoje não somos mais que um algoritmo escrito temporariamente num vidro.

David Fincher, afinal, quebra-nos em dois desde logo na cena da abertura: o medo dos silêncios, o vertigo para o qual os diálogos, mas sobretudo a montagem, nos atira, os diálogos que são debitados – eis o computador (o protagonista) e eis a pessoa que ele não é (nunca será) e com que ele anseia compreender e ficar (a rapariga, Rooney Mara, que abandonamos, mais tarde e pela última vez, numa imagem em que termina de costas – também nós queremos estar com ela, como se fosse o sinal final da realidade-realidade-realidade que escoa neste filme). Parece-me igualmente brilhante o confronto climático, nos escritórios do Facebook, entre Eduardo e Mark – onde se configura uma batalha entre os últimos sinais de uma amizade, e assim de uma humanidade, e a barbaridade tão calculável, precisa e implacável do dinheiro (o mesmo, afinal, tentou Soderbergh filmar em Magic Mike). 

Ao longo do filme, “a rede social” é percebida na teia de peões (de personagens) de um jogo maior – jogo de computador, como Rooney Mara diz. Aquelas personagens vivem até ao fim na euforia de se encontrarem “do outro lado”. Que é como quem diz: no desejo de se encontrarem para fazer share / partilha de algo essencial ao Facebook e à nossa vida. A solidão, precisamente.

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2013

Marfa Girl – potência e solidão




Marfa – território de beleza profunda, quase hipnótica, desenhado por paisagens semidesérticas do Oeste texano (as localidades mais próximas ficam a mais de 30 quilómetros). O que é que nos chama para lá? O mito da independência, de uma história dos EUA que se fechou em si mesma, de um abismo que relocalizou James Dean numa solidão exteriorizada (falamos de quando George Stevens o filmou em Gigante).

50 anos depois foi a vez de descobrirmos Marfa pelos irmãos Cohen (Este País não é para Velhos) e por P. T. Anderson (Haverá Sangue) – uma cidade no meio de nenhures, “sem tempo”, lançada para o cinema como se pudesse ser filmada agora ou daqui a 100 anos. Larry Clark presentifica-a: o que vemos é a Marfa transformada oásis para os artistas, a Marfa das luzes-fantasma (já as recordavam Rolling Stones, em No Spare Parts, inédito de 1978 finalmente lançado em 2011), a Marfa que não evita os problemas de ser uma localidade fronteiriça, invadida pelos imigrantes e por aqueles que, suficientemente loucos, ou então seguros, se deixam ficar por lá, debaixo de um céu que não acaba.

“Aqueles” é a juventude esquecida, os James Dean que ficaram por lá – e Larry Clark filma-os com o maior amor e sentido moral do seu cinema. Como? Primeiro, aceitando que o sexo é parte incontornável – e necessária – para um espírito potente; depois, filmando os corpos com a mesma configuração da paisagem de Marfa (tudo aqui nos parece com energia, tudo é puro); por fim, vendo o desejo como aquilo que há de mais intransmissível.

O que resulta daqui é simples: a proteção de tudo isto pela comunidade, que acaba afinal por se tratar da proteção familiar, resiste a tudo aquilo que a quer perturbar – e assim entramos em tudo aquilo que parece haver de western em Marfa Girl, que desenha um conflito entre o protagonista e um guarda fronteiriço (invadido por uma pulsão sexual e solitária que acaba, ao contrário dos outros que vigia e ameaça, por ser a sua própria destruição). 

Pela sua desarmante simplicidade, o novo filme de Larry Clark é também um respeitoso exemplo que nos relembra que é preciso sempre uma adequação dos meios de produção com um olhar concentrado e cheio de vigor (Marfa Girl foi feito por uma micro-equipa e, não só por isso, por pouco dinheiro). Surpreende-me assim ver o filme a partir de uma janela do computador – não o veremos com certeza numa sala de cinema, já que Larry Clark o “estreou” no seu site oficial (se bem que houve passagem pelo Festival de Roma, onde venceu o prémio de melhor filme) e assim terminar com uma distribuição que, financeiramente, lhe seria desvantajosa. O futuro vê-se, aos poucos, por aqui – é o mito do cinema norte-americano a começar a abandonar para sempre o grande ecrã...

(O texto no Diário de Notícias sobre Marfa Girl)

Domingo, Dezembro 23, 2012

10 recortes de 2012

Estou cada vez mais próximo da ideia de que uma lista de melhores filmes do ano reflete, mais do que qualquer desejo de consenso em torno daqueles que são “melhores” sobre a totalidade de filmes estreados, o olhar de quem os vê – uma lista, afinal, daqueles dez filmes de 2012 que me marcaram em 2012. Uma lista que, como uma crítica ou tudo aquilo que se produz sobre cinema, é permeável à mudança, ao tempo. Dito isto – eis dez filmes muito ricos e profundos, que alimentam a dúvida e um gosto por traduzir um pouco sobre o nosso estado de espírito. Mas, sobretudo, eis-me a mim em 2012, ano particularmente rico em crescimento e descobertas pessoais. Por razões de gestão pessoal mantive o mesmo critério do ano passado: listar apenas longas-metragens que tenham tido estreia comercial em Portugal.

10 - Magic Mike, Steven Soderbergh – Um corpo que é uma mesa – Steven Soderbergh parece celebrar, por um lado, todo o libido associado ao nosso encantamento pelo sexo e pelo dinheiro; por outro, abre-nos a porta para a redenção do amor (lembram-se do último plano do filme? um beijo rápido, quase engolido pelos créditos finais, filmado de longe como se estivéssemos perante um ato de uma estranheza – e verdade – libertadoras).

9 - Procurem Abrigo, Jeff Nichols – Imagem obcecada por uma simples ideia de felicidade – uma família é um porto de abrigo, quer dizer, um shelter construído quando chega uma tempestade –, o protagonista de Nichols é uma espécie de super-homem, aquele que coloca o seu núcleo duro em proteção até o fim do mundo. Ou talvez não: é um simples homem que procura obcecadamente regressar a um conforto que está para sempre perdido.



8 - Cavalo de Guerra, Steven Spielberg – Objeto de uma beleza, estranheza e fulgor surpreendentes, como se o reconhecêssemos (sim, aquele céu, olhares e ética são de quem? John Ford ou Spielberg?) e, ao mesmo tempo, o percebêssemos como um alienígena (“tanto optimismo para 2012? só pode ter chegado tarde...”). Filme incompreendido, talvez. Mas sobretudo um olhar sobre o gosto pela aventura, pelo desconhecido, pelo ponto de retorno – a nossa casa.



7 - Martha Marcy May Marlene, Sean Durkin – Um olhar que que não nos diz nada, que olha para o infinito, que abandona o dia e dentro do qual perdemos o nosso próprio olhar – nos perdemos a nós. Eis um exercício assustador que, sobretudo a partir da montagem, nos coloca numa corda entre dois precipícios e insiste em perguntar: quem és tu que me olhas, e: quem sou eu que me descubro? Deste filme não sairemos tão cedo.


6 - Deste Lado da Ressurreição, Joaquim Sapinho – Os sentidos escorregam por entre os dedos para ficarmos com um filme perigoso (a cena no mar à noite...), intenso (e já agora: maltratado, posto no canto daqueles que “não dizem nada”, mas essa é outra história), que alimenta o mistério e é contaminado por uma beleza compulsiva. Trabalha o nosso desejo de reunião de uma família destruída pela ausência para nos devolver a possibilidade de reunião com o sagrado (o amor, afinal, continua o maior dos mistérios...)


5 - Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, Stephen Daldry – Tão triste quanto aquilo que nos separa do elevador que nos conduz até os mortos, vejo-me aqui perante algo que me diz: procuras a fechadura, sempre, para quê? Para que um avião vá contra as Torres Gémeas, para que o teu pai morra. De novo: para quê? Eis o absoluto tocado de modo tão comovente – as coisas... não fazem sentido. Objeto coral (todos nós estamos aqui), de uma energia, coragem e poder arrasadores.



4 - Holy Motors, Léos Carax – “Diz-me a verdade”, repete o pai para a filha que chora, o tio que está prestes a morrer – como fazê-lo se todos só somos isto, aqueles que se maquilham e saem à rua a hora das marcações? Filme de fronteiras e de máscaras, tão labiríntico como as nossas identidades, que olha para o cinema como milagre (o fascínio pelo movimento assim o traduz) e espaço de experiência: aqui temos a permissão para morrer e renascer.



3 - Vergonha, Steve McQueen – Que corpo é este que se esconde e contorce? Eis um ponto de encontro com seduções: pelo sexo, naturalmente, meio de alienação (no orgasmo somos todos um – um para além de qualquer coisa física); sedução pelo abismo (lembram-se do riso de Brandon no bar? como podemos ter a coragem de o enfrentar?); sedução pela destruição. Entrar ou sair do filme, eis a opção-limite daquele a quem só lhe é pedido o olhar.



2 - O Cavalo de Turim, Béla Tarr – Filmar espaços vazios é um gesto de grande coragem – uma Bíblia, para Béla Tarr, pode ser apenas uma Bíblia. A sua materialidade, essa sim, assusta-nos. Porque é só um livro, só uma batata, só um poço, só algo que vai desaparecer. Eis o vazio – e eis o nosso medo de o encontrar no cinema. Ainda hoje não sei como reagir ao abismo para o qual Tarr me lança – temo perder-me dentro dele e nunca mais voltar às ilusões.


1 - Amor, Michael Haneke – Nestes corredores caminharam e morreram duas pessoas – e o amor? Contamina a imagem como um fantasma – naquele quadro ali, a paisagem desoladora que nos lança para o infinito, naquele chão onde a cadeira de rodas deslizou como um jogo de dois miúdos. Basta-nos isto: retrato da vida, “como é bela”, retrato da solidão – do fim.