domingo, janeiro 15, 2012

Música com Cinema (6): Laurie Anderson e Hot Chip



"O Superman" (1981), de Laurie Anderson
Realização de Joshua White

Pode um teledisco morar num museu, integrando a sua coleção permanente e, em rotação constante, estando assim sob os olhares dos seus visitantes? Pode sim, naturalmente. E hoje, num dos pisos inferiores do MoMA, em Nova Iorque, podemos ver O Superman, teledisco de 1981 que então surgiu para acompanhar a edição em single desta canção de Laurie Anderson. O teledisco foi realizado por Joshua White, nova-iorquino com obra essencialmente assinada sob a designação Joshua Light Show e com uma história de trabalhos de desenho de luz para artistas como os Grateful Dead, The Doors, Jefferson Airplane ou Jimi Hendrix. Ecos dessa experiência surgem assim num teledisco que procura ainda não contrariar o registo minimalista da composição.

O Superman é dos mais atípicos fenómenos de sucesso da história da música pop. Criada sob inspiração de uma ária da ópera Le Cid, de Massenet, a canção surgiu originalmente integrada em United States, de Laurie Anderson. Foi um dos momentos dessa peça que surgiu depois em disco, no alinhamento de Big Science, o seu álbum de estreia, lançado em 1982. Antes teve, porém, edição em single. E a surpresa aconteceu quando um tema de oito minutos, de voz falada e com maior proximidade com o trabalho de visionários de vanguarda que com os caminhos da música pop se transformou num inesperado êxito comercial, tendo inclusivamente atingido o segundo ligar na lista dos singles mais vendidos no Reino Unido.

Nuno Galopim



"I Feel Better" (2010), de Hot Chip
Realização de Peter Serafinowicz

Nascida no princípio do milénio presente, a banda eletrónica inglesa Hot Chip conseguiu responder, no teledisco I Feel Better (single do seu quarto álbum, One Life Stand, lançado em fevereiro de 2010) e de modo ousado, à questão que, na idade do histerismo mediático impulsionado pela Internet, se acabou por impor: como lidar com a ditadura do estereótipo?

Nesta pequena “curta” (assinada por Peter Serafinowicz, actor responsável pela voz de Darth Maul no primeiro episódio de Star Wars, de 1999) a resposta parece seguir o lema “se não consegues vencê-los, junta-te a eles”. E é talvez por isso que os Hot Chip, um grupo de rapazes com ar de nerds, se mascararam de uma boy band com grande sex appeal. I Feel Better começa pois com a banalidade de qualquer outro teledisco de uma banda como os Backstreet Boys, apresentando os membros fictícios do grupo: Kyng, Mar’Vaine, Octavian e Popeye, que dançam coreografados (também preenchida com uma característica vulgaridade) à frente de uma plateia composta por adolescentes fanáticas.


A mudança ocorre com a chegada de um estranho ser que parece vir de outro mundo e que perturba o espetáculo ao continuar com o playback da canção. Os Hot Chip “falsos” - em cima - (que contrastam, em tudo, com os “verdadeiros” - em baixo - que, curiosamente, surgem também no vídeo, misturados com as espetadoras) oferecem resistência de modo assinalavelmente patético: ora dançam frente ao ser, que os aniquila, ora mostram os seus dons de conquistar o público feminino (o último membro a ser exterminado chega a tirar a T-Shirt, mostrando, convicto, os músculos – aquilo que julga valer).


É, de facto, um objeto de grande interesse que, ao se apropriar do mecanismo da sátira, demonstra o modo como a atenção contemporânea reside, em primeira instância, em lugares-comuns ligados àquilo que devem ser o corpo e as posturas humanas. Uma atenção que, afinal, não deixa de transparecer algo de sexual e, em consequência, animal.

Flávio Gonçalves

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